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Taxa Selic: entenda como afeta o consumo, a economia e os investimentos

Março 2020

12 minutos de leitura

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Não é preciso conhecer muito de economia nem acompanhar tão de perto o noticiário sobre o assunto para em algum momento se deparar com notícias sobre o sobe e desce da taxa Selic, principal parâmetro para definir os juros do país.

Apesar de ser tão falada e mencionada em páginas de jornal, sites de notícias e programas TV, muitas dúvidas ainda cercam a taxa Selic, principalmente quanto ao que diz respeito sobre a sua influência no consumo, nos investimentos e na economia como um todo. 

Por isso, elaboramos este artigo para oferecer um panorama completo sobre o tema para que você entenda de uma vez por todas como esse aspecto afeta o seu bolso. Interessado? Então, prossiga com a leitura!

O que é a taxa Selic?

Ao explicar o que é a taxa Selic, a maior parte das respostas será dada na mesma direção: de que ela é a referência para os juros básicos da economia do país. Embora essa resposta esteja correta, ela não está completa, principalmente quando pensamos na forma como a Selic é obtida.

Logo de imediato, é preciso deixar claro que mais do que uma palavra, Selic é a sigla para Sistema Especial de Liquidação e Custódia. Nessa plataforma, são feitas operações de empréstimo de curtíssimo prazo entre os bancos, que usam títulos públicos como garantia desses negócios. 

Eles fazem isso para honrar seus compromissos e cumprir uma série de obrigações impostas pelos Banco Central do Brasil. Este, por sua vez, é o órgão que regula a atuação dessas instituições financeiras.

Essas regras servem tanto para que os bancos mantenham seu caixa equilibrado quanto para controlar a quantidade de dinheiro circulando na economia — um ponto importante quando falamos sobre a Selic, como vamos abordar mais a frente. Todo o volume de operações feitas no Selic se reflete em uma taxa média diária dos juros cobrados nessas negociações entre os bancos.

Dessa forma, entre as pessoas com maior afinidade com os termos do mercado financeiro, é bastante comum ouvir a diferenças "o Selic", para se se referir ao sistema, e "a Selic", para referir-se à taxa.

Afinal, como funciona a taxa Selic?

Como você viu até agora, a Selic é uma plataforma onde são feitos empréstimos entre bancos e que gera uma taxa que reflete a média dos juros cobrados nessas operações, que funcionam em curtíssimo prazo. Todavia, essa não é necessariamente a taxa Selic que você vê nas notícias. Isso acontece porque existem duas taxas Selic: a Over e a Meta.

A taxa Selic Over é aquela obtida a partir da média dos juros cobrados nas transações entre os bancos dentro da plataforma. Ela é registrada diariamente e a partir de uma conversão, se transforma em uma taxa anual. De modo geral, a Selic Over gera menos repercussão no noticiário, embora seja acompanhada de perto por muitos investidores.

A Selic que preenche as páginas do noticiário é a Selic Meta. Ela serve como uma referência estabelecida pelo Banco Central de quanto devem ser os juros cobrados nas transações realizadas dentro dessa plataforma e, por consequência, para os juros das demais operações financeiras realizadas no país.

Como a taxa Selic é definida?

Afinal, de onde é que sai e qual é o tamanho da Selic Meta? Ela é definida nas reuniões do chamado Copom (sigla para Comitê de Política Monetária), cujos membros se encontram a cada 45 dias para definir qual será o tamanho da taxa. Esse órgão existe desde 1996 e, com essa periodicidade, o normal é que aconteçam oito reuniões a cada ano, cada uma se estendendo por 2 dias.

O Copom é um órgão colegiado, composto por diretores do Banco Central. Ou seja, a decisão sobre a Selic Meta nunca é tomada por apenas uma única pessoa. O resultado dessas reuniões é o que costuma ser amplamente noticiado e sempre cercado de muita expectativa.

Para chegar a um consenso sobre se a Selic Meta, os diretores do Banco Central analisam uma série de aspectos e dados da economia nacional e internacional, levando em conta o nível de atividade econômica, a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto, as projeções da inflação e, inclusive, o cenário político. A partir disso, é definido se haverá uma elevação, um corte ou uma manutenção da Selic.

Quase sempre, a taxa Selic Over fica 0,10% abaixo da taxa Selic Meta. Logo, com uma Selic Meta de 5,0%, a Selic Over ficará em torno dos 4,9%. De todo modo, vale reforçar a informação de que a Selic divulgada pelos jornais é a meta estipulada pelo Copom, obtida após a decisão nas reuniões do órgão.

Qual a influência da taxa Selic na economia?

Você certamente já ouviu isso nas notícias (além de termos mencionado essa informação no artigo), mas a taxa Selic serve como referência para os juros básicos das demais operações da economia nacional. Porém, além disso, a Selic é o principal instrumento de política monetária da economia nacional.

Em outras palavras, a Selic é utilizada tanto para impactar o custo do dinheiro, quanto para tentar regular a quantidade de recursos em circulação na economia, em diferentes cenários.

Por isso as alterações na taxa básica de juros são acompanhadas de perto por investidores e por pessoas comuns, uma vez que essa decisão por parte do Copom indica tanto como anda o cenário econômico atual, quanto dá perspectivas para os próximos meses.

Atualmente, o Brasil vive um ciclo de queda constante nas taxas de juros, o que fez com que o número atingisse mínimos históricos depois de estar por muito tempo entre as mais elevadas do mundo.

Depois de atingir os 14,25% ao ano em agosto de 2016, a taxa foi paulatinamente reduzida até atingir 4,5 em dezembro de 2019, o menor número desde 1999, quando foram adotadas as chamadas metas de inflação, da qual falaremos com detalhes mais adiante.

Qual a influência da taxa Selic no dia a dia das pessoas?

Certo, a Selic é um importante instrumento no controle da economia e hoje se encontra em patamares historicamente baixos, principalmente para os padrões brasileiros, que têm um longo período de convivência com juros lá em cima.

Mas como isso se reflete de forma direta no dia a dia das pessoas, que muitas vezes não param ou não têm tempo para pensar sobre os reflexos da taxa Selic no seu bolso e no seu dia a dia?

Lembra de quando mencionamos que, ao ser utilizada como instrumento de política monetária, a Selic tem forte influência sobre o custo de captação do dinheiro? Isso faz com que ela tenha a capacidade de aumentar ou diminuir a quantidade de recursos circulando na economia, o que afeta diretamente dois indicadores muito importantes para o cenário econômico de um país: o consumo das famílias e o desemprego.

E a lógica por trás disso é relativamente simples: taxas de juros baixas tendem a movimentar a economia, uma vez que reduzem o custo por trás de crediários e financiamentos, uma importante forma de acesso ao consumo de boa parte das famílias brasileiras, principalmente quando falamos de bens duráveis ou de alto valor.

Imagine, por exemplo, que uma família tem o desejo de trocar de carro. Essa não é uma necessidade, mas um novo veículo traria muito mais conforto. Dessa forma, é possível que eles procurem um banco para consultar a possibilidade de fazer um financiamento do automóvel, ainda que existam outras formas de fazer essa aquisição (como por meio dos consórcios).

Se o banco, influenciado pela Selic alta, oferecer um financiamento com juros elevados, é mais provável que a família interessada no carro novo mude de ideia. Por outro lado, juros menores tornam o financiamento mais convidativo e aumentam a possibilidade de que o negócio seja fechado.

A compra do carro fará com que a economia seja movimentada. Portanto, se muitos carros forem vendidos, é presumível que a montadora tenha que contratar mais funcionários para dar conta da demanda de novos veículos, contribuindo assim para a redução do desemprego.

Novos empregados terão dinheiro para consumir e, com isso, darão prosseguimento à movimentação da economia, o que faz com que o país entre em um círculo virtuoso de crescimento, que teve início lá atrás, com a redução da taxa Selic.

Outro fator que influencia o aumento do consumo graças à redução da Selic é que isso torna algumas aplicações financeiras — principalmente de renda fixa — menos atrativas. Desse modo, é comum que o dinheiro antes reservado para tais aplicações seja destinado ou para o consumo ou para o investimento em capital produtivo, sobretudo quando falamos de empresas interessadas em aumentar sua capacidade de produção.

Por fim, embora tenhamos utilizado um automóvel como exemplo de como a redução da taxa básica de juros influencia no consumo e no desemprego, esse efeito costuma ser disseminado por diversos setores da economia.

Em outra hipótese, pense nas pessoas que postergam a troca dos seus eletrodomésticos pela dificuldade de conseguir crédito barato via crediário. Em um cenário com juros baixos, a chance de obter um crediário com condições mais vantajosas aumenta consideravelmente. Quem nunca se sentiu tentado a parcelar aquela compra ao ver uma oportunidade com juros bem baixinhos, não é mesmo?

Entretanto, vale ressaltar que a taxa Selic não faz milagres sozinha. Ou seja, mesmo que ela esteja em níveis bem baixos (como no começo de 2020), isso não significa que a economia vá navegar de vento em popa.

Muitos outros aspectos influenciam isso, como o nível de investimento dos empresários e a manutenção de outros indicadores econômicos saudáveis, como o tamanho da dívida pública e a inflação. Esta também é fortemente influenciada pela economia e é justamente o tema do nosso próximo tópico.

Qual a relação da taxa Selic com a inflação?

Como você viu, a Selic baixa pode representar um impulso no consumo, o que é ótimo, uma vez que isso tende a movimentar a economia e fazê-la crescer. Todavia, esse fenômeno pode gerar um efeito desagradável e que assusta muito os brasileiros, principalmente os mais velhos: a inflação.

O custo menor do dinheiro faz com que a demanda sobre determinados produtos aumente. Se a oferta não acompanhar esse aumento, o normal é que a inflação surja — isso provoca o efeito reverso e faz com que o Banco Central precise agir, o que costuma ser feito por meio da elevação da taxa Selic.

Para compreender melhor essa dinâmica, é necessário ter em mente o que é, afinal de contas, a inflação. Por definição, considera-se um movimento inflacionário aquele no qual há um aumento persistente e generalizado do nível dos preços em uma economia. Essa característica faz com seja possível diferenciá-la de picos pontuais na elevação dos preços de determinados produtos.

Isso significa, na prática, que aumentos isolados dos preços de alguns produtos não se traduzem, necessariamente, em aumento ou descontrole da inflação. Ou seja, a carne ou o tomate podem aumentar 20% em um mês e isso terá impacto no bolso do consumidor. Todavia, se esse aumento não prosseguir no mês seguinte, tal elevação terá impacto bastante reduzido sobre as taxas de inflação, principalmente em longo prazo.

A inflação oficial no Brasil é medida pelo chamado IPCA, sigla para Índice de Preços ao Consumidor Amplo. O IPCA é calculado e divulgado mês a mês pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para chegar ao número da inflação daquele período, os pesquisadores saem às ruas de várias regiões metropolitanas do Brasil. Essa coleta considera o espaço de tempo que vai do dia 1º ao dia 30 de cada mês e reflete a inflação para as famílias que ganham entre 1 e 40 salários-mínimos.

De todo modo, não é tão fácil chegar ao número da inflação. E a razão para isso é simples: o cálculo do IPCA é feito sempre por meio de uma média ponderada, no qual cada grupo de produtos tem um peso maior na composição do índice. Logo, elevação no preço dos alimentos ou dos combustíveis tem impacto muito maior do que aumento das contas de telefone ou dos vestuários, por exemplo.

Tal lógica explica também por que a inflação atua com muito mais força sobre as famílias de menor renda. Esses grupos costumam gastar quase tudo o que ganham em itens de primeira necessidade, principalmente alimentos.

Com isso, qualquer aumento nos preços certamente terá enorme peso no seu orçamento, ainda mais quando levamos em conta que essas famílias não costumam ter reservas financeiras que ajudam na proteção contra tais choques.

Do outro lado, famílias com renda maior comprometem uma fatia menor dos seus salários com a compra de produtos básicos, o que faz com que o aumento dos preços seja sentido com mais suavidade. Além disso, não é raro que essas pessoas contem com reservas financeiras, muitas vezes aplicadas em investimentos que oferecem rendimentos similares aos juros ou à inflação, ampliando a proteção contra movimentos inflacionários.

Por muito tempo, principalmente entre meados dos anos 1980 e começo dos anos 1990, a inflação foi um problema sério para os brasileiros, que conviviam com as taxas estratosféricas e a constante remarcação dos preços nos mercados, às vezes em vários momentos no mesmo dia.

Diversas reformas econômicas mais a implementação do Plano Real domaram a hiperinflação no país. Hoje em dia a economia brasileira trabalha com as chamadas metas de inflação, o mecanismo em vigor desde 1999.

De acordo com essa regra, o governo se compromete a manter a inflação dentro de um parâmetro definido, seguindo uma margem de tolerância, tanto para mais quanto para menos. Para 2020, a meta de inflação proposta é de 4%, com um intervalo de 1,5% para cima ou para baixo (ou seja, índices de 2,5% e 5,5% estarão dentro da meta).

Nesse ponto voltamos à relação entre taxa Selic e inflação. O aumento ou a queda dos juros básicos é o principal mecanismo de controle dos preços, o que contribui com que eles se mantenham dentro da meta proposta. Em 2019, o IPCA fechou o ano somando 4,31%, enquanto o centro da meta era de 4,25%.

Qual a influência da taxa Selic nos investimentos?

Mas não é apenas quando o assunto é a inflação ou a atividade econômica que a taxa Selic vem à tona. Quem tem aplicações financeiras precisa acompanhar de perto a oscilação de índice para que consiga tomar as melhores decisões na hora de investir seu dinheiro.

Essa influência da Selic nos investimentos se dá principalmente nas aplicações de renda fixa, que sofrem diretamente com o sobe e desce do índice. Isso não significa que investimentos de renda variável também não sofram impacto com a mudança das taxas básicas de juros da economia, mas isso acontece de maneira diferente e nem sempre de forma direta.

As aplicações em renda fixa são aquelas onde o investidor conhece qual será o seu retorno no momento da aplicação. Isso é feito tanto em investimentos pré-fixados, no qual a rentabilidade exata é informada no momento do investimento, quanto em aplicações pós-fixadas, cuja retorno fica vinculado a um indicador econômico, que pode ser a taxa Selic.

Logo, essa vinculação entre rentabilidade e taxa Selic faz com que mudanças nesse número afetem quanto o investidor receberá por aquela aplicação. Se uma aplicação prefixada promete um retorno de 7% ao ano, esse valor será pago independentemente da variação da Selic. Já uma aplicação pós-fixada pagará exatamente o acumulado dos juros no período.

Um exemplo para entender isso são os títulos públicos do Tesouro Direto atrelados à Selic. Todavia, outros tipos de investimento sofrem influência similar, como os Certificados de Depósito Bancários (CDB) e as Letras de Crédito do Agronegócio ou Imobiliário (LCAs e LCIs).

Outra forma de entender como os cortes na Selic influenciam nos investimentos é considerando a aplicação mais popular entre os brasileiros: a caderneta de poupança. Nela, o retorno é calculado com regras que variam de acordo com a oscilação da Selic. 

Se ela estiver acima ou igual a 8,5%, será pago um rendimento de 0,5% ao mês + taxa referencial. Em caso de juros abaixo de 8,5%, o investidor receberá 70% desse índice.

A mesma influência da Selic sobre os investimentos acontece com aquelas aplicações que têm sua rentabilidade vinculada com chamado CDI (Certificado de Depósito Interbancário). O índice do CDI é obtido pela média dos juros cobrados pela compra e venda de títulos privados entre os bancos.

Porém, o que você precisa saber é que o CDI quase sempre acompanha muito de perto a taxa Selic. Na maioria dos casos, o CDI fica em torno de 0,10% abaixo do patamar da Selic. Assim, com as taxas de juros em 4,5%, o CDI será de aproximadamente 4,4%.

Conforme mencionamos, as opções de renda variável também sofrem influência da Selic, sempre de forma mais sutil. Isso acontece principalmente pelo impacto do custo do dinheiro e do peso das taxas de juros no nível do consumo e pela forma como tudo isso atinge as ações e os outros tipos de investimento dessa categoria.

De todo modo, ainda que exerçam grande influência sobre muitas formas de aplicação, é sempre necessário reforçar que não existe forma direta de se investir na taxa Selic ou mesmo no CDI. Esses dois índices são apenas utilizados para o cálculo da rentabilidade de diversas formas de aplicação.

Mas como montar uma boa carteira de investimento considerando a Selic, ainda mais em patamares bem baixos? Nesses casos, a recomendação para o investidor é sempre procurar por aplicações que ofereçam rendimentos superiores à Selic vigente e que não estejam atrelados a ela.

Isso pode demandar mais pesquisa e uma exposição maior a aplicações um pouco mais arriscadas, mas que podem garantir rendimentos mais satisfatórios. Logo, ações e alguns tipos de fundos de investimento costumam se tornar mais atrativos, sempre considerando seu perfil de investidor e seus objetivos ao investir.

Se você chegou até aqui, percebeu que a taxa Selic não é apenas só mais um número anunciado entre uma e outra notícia no jornal. A sua mudança, seja para cima ou para baixo, tem impacto direto na vida de todos nós e devem ser acompanhada de perto, diante da sua importância para o cenário econômico, para o controle dos preços e para os investimentos.

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